eder Miranda é contador empresário e sócio da

ELFEM CONSULTORIA

O risco das doações em usufruto: o caso Stênio Garcia e a ilusão do “tá tudo garantido” 

Quando alguém fala em “evitar inventário”, muita gente corre para a solução mais popular do Brasil: doar o imóvel para os filhos e manter o usufruto vitalício

No papel, parece blindado. 
Na vida real, pode virar um boleto emocional + um processo judicial

E o caso recente envolvendo o ator Stênio Garcia colocou isso sob os holofotes. 

O que aconteceu no caso Stênio Garcia (em resumo, com fatos públicos) 

Segundo reportagens, Stênio Garcia entrou com ação judicial contra as filhas, Cássia e Gaya Piovesan, envolvendo um apartamento em Ipanema (RJ). Ele afirma ter usufruto vitalício do imóvel e alega estar sendo impedido de exercer esse direito. (Metrópoles

O ator diz que o apartamento teria sido alugado em 2019 sem o conhecimento/consentimento dele, e que teria tomado conhecimento de documento relacionado ao contrato assinado pela mãe das filhas e também por elas. (Metrópoles

Nos autos (conforme noticiado), ele pede que a Justiça reconheça seu usufruto e determine sua imissão na posse (na prática: retomar o controle/posse do imóvel), além de indenização por perdas e danos pelo período em que, segundo ele, ficou privado do uso/renda do apartamento. (Metrópoles

A própria matéria informa que ele teria atribuído à causa o valor de R$ 2,5 milhões. (Metrópoles

Em outro ponto noticiado, Stênio afirma viver da aposentadoria e contar com apoio da família de sua esposa, Marilene Saade, mencionando vulnerabilidade na velhice. (Metrópoles

Também foi reportado que ele moveu medidas paralelas, como ação de despejo para retomada do apartamento, e que pedido de urgência (liminar) teria sido negado pela Justiça do RJ (segundo Veja). (VEJA

A defesa do ator, por sua vez, divulgou nota dizendo que o processo seria um ato de “subsistência” e “autopreservação da dignidade”, e tentando enquadrar o caso como disputa patrimonial (não “guerra familiar” no discurso público). (Metrópoles

Importante: como toda disputa judicial, há versões e alegações. Aqui estamos analisando o risco do mecanismo, usando informações publicadas pela imprensa. 

Por que esse caso acende o alerta: usufruto não é sinônimo de controle 

A doação com reserva de usufruto funciona assim, de forma simples: 

  • A propriedade vai para quem recebeu a doação (ex.: filhos). 
  • O uso e os frutos (morar/alugar/receber aluguel) ficam com o usufrutuário enquanto durar o usufruto (ex.: pai/mãe). (Metrópoles

Ou seja: juridicamente, o usufruto dá direitos relevantes. 
Mas o ponto “perigoso” é outro: 

✅ Você deixa de ser proprietário. 
E quando o “clima familiar” muda, o que era harmonia pode virar “interpretação”, “desentendimento” e, no limite, Judiciário

E aí entra a frase que dói: 

Ter direito no papel não é o mesmo que ter controle na vida real. 

Os 5 riscos práticos da doação com usufruto (o que quase ninguém coloca no anúncio) 

1) Você pode precisar “provar” o óbvio 

Em cenários de conflito, o usufruto que deveria ser paz vira discussão: quem pode administrar, quem recebe aluguel, quem assinou o quê — e de repente a sua velhice vira prova documental. (Metrópoles

2) Renda do aluguel pode virar ponto de guerra 

No caso noticiado, o centro do problema envolve justamente o aluguel e o controle do contrato, com alegação de que a renda não teria sido repassada ao usufrutuário. (VEJA

3) Liminar pode não vir 

Muita gente acredita: “se der problema, eu resolvo rápido”. 
Na prática, existe burocracia, prazos, citação, defesa… e até pedido de urgência pode ser negado, como foi reportado nesse caso. (VEJA

4) Você troca estratégia por esperança 

A doação com usufruto costuma ser feita com a mentalidade: “meus filhos nunca fariam isso”. 
Só que planejamento patrimonial não pode depender de caráter, humor, casamento, influência de terceiros ou feridas antigas. 

5) O custo invisível é emocional (e às vezes público) 

Além de dinheiro e tempo, existe o custo que ninguém calcula: a relação familiar
Quando vira manchete, vira ainda pior. 

Então “doação com usufruto” é sempre ruim? 

Não. Pode fazer sentido em alguns contextos. 
O ponto é: não é a solução “automática” que muitos vendem como se fosse “inventário resolvido”. 

O caso Stênio Garcia é didático porque mostra a dor do pior cenário: 
você chega na fase de maior vulnerabilidade e, em vez de paz, precisa disputar posse, renda e dignidade. (Metrópoles

O caminho mais inteligente: sistema, não gambiarra 

Se o seu objetivo é: 

  • evitar inventário, 
  • manter controle, 
  • reduzir risco de briga, 
  • e organizar o legado com segurança, 

o que funciona melhor é um sistema de planejamento patrimonial e sucessório, com regras claras, governança e previsibilidade — e não um único “truque” isolado. 

Porque patrimônio não é só dinheiro. 
É paz. É dignidade. É legado. 

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