eder Miranda é contador empresário e sócio da

ELFEM CONSULTORIA

“A família teve que vender o imóvel para pagar o inventário”: por que isso acontece e como evitar

Essa frase dói porque ela revela uma realidade comum no Brasil: muitas famílias precisam vender um bem às pressas (às vezes com desconto) só para conseguir “abrir caminho” e acessar a herança.

E isso quase nunca acontece por falta de patrimônio. Acontece por falta de liquidez + burocracia + prazos.

Por que o inventário pode forçar a venda de um imóvel?

Quando alguém falece, a herança precisa ser formalizada por inventário (judicial ou em cartório). Durante esse processo, surgem custos que costumam apertar a família — especialmente quando o patrimônio é “rico em imóveis” e “pobre em dinheiro disponível”.

Os principais pontos são:

1) ITCMD (imposto de herança/doação)

O ITCMD é um imposto estadual cobrado sobre transmissão por herança ou doação. Ou seja: para transferir legalmente, há imposto.

2) Custas e despesas do procedimento

Além do imposto, entram custos do processo (cartório ou Judiciário), certidões, avaliações, regularizações e honorários. E isso pode virar um “combo” caro no pior momento emocional da família.

3) Prazo e risco de multa

O CPC determina que o inventário deve ser instaurado em até 2 meses do falecimento (com prazo de conclusão de 12 meses, prorrogável).
E alguns estados aplicam multa no ITCMD quando há atraso (regras variam por estado).

Resultado: a família precisa pagar uma conta relevante… sem ter caixa, e a saída “mais rápida” vira vender um imóvel.

O que quase ninguém percebe: inventário é processo + dinheiro parado

Com inventário, muitos bens ficam travados para venda/transferência formal e bancos/órgãos pedem documentação do espólio. Isso cria um paradoxo:

  • a família precisa de dinheiro para pagar o inventário
  • mas o dinheiro está “dentro” do patrimônio travado

É por isso que o imóvel vira o “ATM da urgência”: vende-se rápido para gerar caixa — muitas vezes no pior timing.

Planejamento sucessório com regras

Aqui entram ferramentas que organizam quem administra, como decide, como transfere e como evita conflito — e isso reduz o risco de travamento e de decisões no improviso (testamento, doações com cláusulas/condições quando cabíveis, governança familiar e estruturas societárias como holding, quando fazem sentido).

O ponto central não é “fugir da lei”. É deixar a lei operável para sua família, sem virar um labirinto caro.

Checklist rápido: sinais de que sua família corre esse risco

Se você marcar 2 ou mais, vale olhar com carinho:

  • ( ) patrimônio concentrado em imóveis
  • ( ) pouca liquidez (pouco dinheiro disponível)
  • ( ) documentos desorganizados (matrículas, registros, contratos, declarações)
  • ( ) família sem regras claras (quem administra / quem decide)
  • ( ) “depois a gente resolve” é o plano oficial

Quando uma família vende um imóvel para pagar inventário, o problema raramente é “falta de patrimônio”. É falta de estrutura e previsibilidade.

Planejamento patrimonial e sucessório é, no fim, um gesto de cuidado: evitar que, no pior momento, sua família tenha que virar “departamento jurídico” — e ainda vender patrimônio com pressa.

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